Cabotinismo editorial

Folheando a revista Veja da última semana, o leitor vai encontrar, na seção “Perfil”, um artigo denominado “Mansur, agora em família“. Segue-se o subtítulo:

“O empresário que quebrou a Mesbla, o Mappin e o banco Crefisul enfrenta um rumoroso processo de divórcio”

O pior vem a seguir. Após uma breve introdução sobre a carreira empresarial de Ricardo Mansur, que se tornou nacionalmente famoso com a quebra do Mappin, da Mesbla e do Banco Crefisul, a diligente jornalista que assina a matéria passa a informar sobre as vicissitudes matrimoniais do empresário, que culminaram em ação de divórcio promovida por sua ex-companheira.

São fornecidos fartos detalhes sobre as razões do rompimento entre os dois e detalhes apimentados das razões que levaram Patrícia Mansur a ajuizar a ação de divórcio.

Todas as informações foram extraídas do processo – que necessariamente tramita em segredo de justiça -, inclusive possibilitando-se ao leitor, na edição da Internet, ampliar a imagem do que parece ser a primeira página da petição inicial.

O acesso a todos esses dados foi aparentemente franqueado pela ex-mulher de Mansur, já que este, contactado pela revista, teria se limitado a algumas observações sobre o equilíbrio emocional de Patrícia.

Mas ele poderia ter dito mais: que sua vida particular e detalhes de sua intimidade conjugal não eram de interesse público, como de fato não são.

Práticas jornalísticas deste tipo parecem ter se tornado corriqueiras. A indústria da comunicação se arrogou o direito, nos últimos anos, de publicar o que bem entende, fazendo tábua rasa da norma constitucional que assegura a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas (art. 5º, X), em nome da liberdade de imprensa e de expressão.

Em casos como este, entretanto, a violação da intimidade é feita com a clara intenção de tirar proveito dos piores sentimentos das pessoas e do interesse mórbido pelas desgraças alheias. (E justificaria a propositura de uma ação de ressarcimento de danos morais) Aparentemente, este tipo e procedimento encontra receptividade em um um número economicamente significativo de leitores, incapazes de se dar conta da manipulação de que são alvo.

A exemplo do que acontece com as carteiras de cigarro, deveria ser obrigatório que revistas como a Veja tivessem uma tarja de advertência:

“O Ministério da Saúde adverte: esta revista contém cenas explícitas de violação da privacidade e da intimidade”

Porto Alegre, 29 de setembro de 2004.

Carlos Alberto Etcheverry

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