Da amizade

Quem folheou a Folha de São Paulo de domingo (10.10.99) deve ter pensado que teria sido preferível uma ida ao cinema a tomar conhecimento de algumas matérias contidas no jornal. Duas delas resultaram de gravações.

Na primeira, presos recolhidos em um distrito policial de São Paulo registraram uma sessão de espancamento e humilhações promovida pelos policiais encarregados da custódia, como já não bastassem as condições subumanas em que são mantidos os presos em boa parte das delegacias de polícia do mais rico estado brasileiro.

Na segunda, soldados gravaram palestra de oficial da Polícia Militar, na qual ele incentiva seus subordinados a matar “bandidos” feridos em tiroteio, antes da chegada ao hospital. Em outra ocasião fora bem mais específico: “Bandido mala tem que morrer. Não se apresenta ninguém em pé, pode matar que eu seguro. Em ocorrência de auto de resistência tem que apresentar bandido morto.”

A terceira matéria é mais interessante: traz ao conhecimento público que Ciro Gomes, virtual candidato a sucessor de Fernando Henrique Cardoso, “omitiu receitas do Fisco em pelo menos duas declarações de Imposto de Renda.” Folha de São Paulo, cad. 1, pág. 12)

Uma dessas receitas omitidas está relacionada ao relacionamento mantido por Ciro Gomes com o Beach Park, maior parque aquático da América Latina, empresa por ele beneficiada, quando ainda era governador do Ceará, com o asfaltamento dos 22 quilômetros que separam o empreendimento de Fortaleza. Não foi o único benefício: também criou um sistema de parceria em campanhas publicitárias, através do qual o Estado custeava metade das despesas feitas pelas empresas turísticas, o que motivou um “aumento substancial na procura pela atração turística” e o fim das dificuldades financeiras pelas quais passava o parque. (idem, pág. 13)

Um dos sócios da empresa, Arialdo Pinho, que era amigo de Ciro desde antes de sua eleição, relatou aos jornalistas que o ex-governador trabalhou no parque de janeiro de 1997 até o início da campanha à presidência da República (98), como diretor estratégico. Afirmou ainda que ele recebia R$10.000,00 por mês, pagos em dinheiro, afirmação que posteriormente desmentiu. Procurado para falar sobre o assunto, o líder da bancada do PPS – partido ao qual está filiado Ciro – na Câmara dos Deputados, João Hermann, achou estranha a pergunta sobre salários, perguntando se ele não tinha recebido ‘pro-labore’, como são chamadas as retiradas mensais feitas por sócios de empresas.

Ciro Gomes, por seu turno, declarou que apenas prestou uma assessoria eventual, pois “não tinha condições de dar expediente” – informação desmentida por sua ex-mulher, segundo a qual ele ia todos os dias ao parque -, não tendo recebido nenhum pagamento em dinheiro: “Tenho os créditos lá, quando precisar eu tiro”. (idem)

As divergências entre contratante e contratado não terminam aí. Ciro Gomes utiliza um Audi A-6, de propriedade do Beach Park, em seu poder desde que teve início o relacionamento profissional. Trata-se de um veículo de luxo, com preço não inferior a R$110.000,00. Segundo ele, o empréstimo constitui remuneração por “uns serviços” que presta ainda hoje. A propriedade do automóvel lhe será transmitida quando seus créditos completarem o valor do mesmo.

Já a história de Arialdo Pinho é diferente: “(…) o carro era parte da remuneração de Ciro quando ele era diretor estratégico. ‘Depois ele ficou com o carro. É meu amigo e ficou com o carro.’” (idem)

Uma leitura preconceituosa ou malevolente desses fatos conduziria a um resultado catastrófico para a imagem de Ciro Gomes e, conseqüentemente, para as suas ambições políticas. Com efeito, a dose adequada de má vontade autorizaria concluir que talvez ele tenha algum tipo de participação na empresa. Indício disso, por exemplo, seria o fato de estar utilizando um carro de valor elevado de propriedade da mesma, em circunstâncias normais adquirido apenas para uso de sócios-gerentes ou altos executivos trabalhando em regime de dedicação exclusiva.

Não havendo por enquanto como formar um juízo seguro sobre o assunto, ninguém tem o direito de fazer afirmações categóricas sobre seja lá o que for. Mas qualquer um pode pensar o que quiser. É possível até mesmo admitir que não é apenas o amor que é lindo: também o é a amizade. Que outro sentimento levaria Arialdo Pinho, sócio do Beach Park, a deixar que Ciro Gomes continuasse utilizando um automóvel caríssimo da empresa – ou seja, de terceiro – apesar de não trabalhar mais nela, correndo até o risco de ser responsabilizado civilmente pelos outros sócios?

Porto Alegre, 11 de outubro de 1999.

Carlos Alberto Etcheverry

(Artigo originalmente publicado na Gazeta Mercantil, edição do RS)

Esta entrada foi publicada em Artigos. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>