Desconstruindo uma pesquisa de opinião

Interessantíssimo o artigo do jornalista Alberto Dines publicado no Observatório da Imprensa, revista dedicada à análise dos órgãos de comunicação em nosso país. Intitula-se “Goebbels estava certo, o rádio é imbatível”.

Relata que Goebbels, ministro nazista da Propaganda, tanto compreendeu a importância do rádio – que é o veículo de maior penetração no Brasil – como instrumento de propaganda pela instantaneidade da comunicação, que assumiu o comando da própria indústria de receptores.

A tal característica, contudo, vem se somar a “capacidade única de mobilizar as audiências para mensagens simplistas e emocionais”, fato que possibilitou, por exemplo, o enorme crescimento de seitas messiânicas aqui e em outros países. São incontáveis, também, os exemplos de profissionais do rádio que utilizaram essa capacidade em proveito próprio, para construir carreiras políticas em tempo recorde, às vezes para melhor servir aos interesses dos seus empregadores.

Essa mobilização das audiências, aliás, corresponde à necessidade empresarial: maior audiência significa maior receita publicitária. Se não for possível conciliar jornalismo de boa qualidade com a geração de lucros, adivinhe de quem é o azar? Compreende-se assim o que freqüentemente se verifica, para Alberto Dines, nos programas matinais:

“Os programas noticiosos matinais são feitos, em sua maioria, na base da leitura dos jornais matutinos e, sobretudo, dos comentários improvisados dos apresentadores, que, não ganhando o suficiente para se preparar previamente, apelam para o caminho fácil da ira sagrada, da arrogância reducionista e da veemência dos simplismos. É nesta pressa matinal ou, em seguida, no infernal rush do trânsito de nossas grandes cidades que o rádio faz a cabeça e fomenta a atitude niilista, enfurecida, reducionista do ‘isto é uma vergonha!’ que já chegou à TV em horário nobre (pela goela de um âncora de TV oriundo da t.s.f., telefonia sem fio). Convém não esquecer que as recentes cruzadas em favor da pena de morte começaram em programas de rádio.”

Não são pecados privativos de apresentadores improvisados ou mal remunerados. Examine-se, por exemplo, uma pesquisa de opinião ao vivo feita por um conhecido radialista de Porto Alegre, na semana que passou, baseada na recente concessão, por Ministros do Supremo Tribunal Federal, de medidas liminares proibindo a quebra de sigilo telefônico, bancário e fiscal e a decretação de indisponibilidade de bens de pessoas investigadas pelas comissões parlamentares de inquérito em curso no Congresso Nacional.

A pergunta apresentada aos ouvintes foi: “O Legislativo tem que ir a fundo nas CPIs ou tem razão o Judiciário, que quer manter o sigilo bancário, telefônico e fiscal e indisponibilidade de bens até o julgamento?”

Tal foi como foi formulada, a pergunta “contrabandeia”, talvez inconscientemente, opiniões discutíveis e até equivocadas, mas apresentadas implicitamente como inquestionáveis: (a) a única forma de o Legislativo “ir a fundo” nas investigações é através das medidas proibidas pela Justiça, tal como estavam sendo praticadas – isto é, sem fundamentação e/ou autorização judicial e sem preservar o sigilo das informações obtidas, no caso das quebras de sigilo, e agindo ao completo arrepio da lei, no tocante à decretação da indisponibilidade de bens – e que as alternativas são mutuamente excludentes. Em outras palavras, afirmou-se que as decisões judiciais ora examinadas são causa impeditiva do aprofundamento das investigações…

Ora, o Judiciário não quer impedir a quebra, em qualquer hipótese, do sigilo bancário, telefônico ou fiscal. Apenas a condicionou à prévia autorização judicial, com a apresentação de razões que a justifiquem. (Se é correta essa interpretação, é questão a ser decidida no foro apropriado e não em programas de rádio, inadequados, ademais, para a discussão da matéria com a seriedade e rigor exigidos.) Logo, o aprofundamento das investigações não é incompatível com o controle judicial dos meios utilizados para tanto. É correto afirmar, portanto, que o Legislativo tem que “ir a fundo” e que o Judiciário tinha razão em impedir as quebras de sigilo tal como estavam sendo feitas ou, pelo menos, que havia base legal razoável para decidir como decidiu.

Quanto à colocação em indisponibilidade dos bens dos investigados, não se trata de medida ligada à investigação e sim à garantia da execução de eventual sentença judicial. Decretando-a, o Legislativo invadiu de forma escandalosa a esfera de competência de outro poder.

Prestar atenção no que se faz é desejável em qualquer profissão e imprescindível em algumas, como é o caso dos comunicadores, sob pena de serem difundidas interpretações equivocadas da realidade, com conseqüências políticas que podem ser desastrosas. Dependendo do ponto de vista, é claro…

Porto Alegre, 28 de junho de 1999.

(Artigo originalmente publicado na Gazeta Mercantil, edição do RS)

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