O futuro que aguarda a todos nós?

A revista Veja desta semana noticiou matéria sob o título “Fundo de Pensão é dirigido como quitanda”. Nela, apresenta o que denomina como “uma radiografia espantosa da bagunça no fundo [previdenciário] da Caixa”.

Os novos diretores da Funcef, quando assumiram seus cargos no ano passado, decidiram determinar a realização de uma auditoria no que é o quarto maior fundo de pensão do país.

Realizada por empresa conceituada e em caráter confidencial, mostrou alguns fatos escandalosos: um terço das operações de compra e venda de ações resultou em perda patrimonial. A diretoria anterior recebeu a quantia de 5,2 bilhões de reais para administrar e, ao final do mesmo ano, conseguiu reduzi-la a 4,9 bilhões – um prejuízo de 300 milhões de reais. A aplicação do capital inicial em caderneta de poupança, pura e simples, teria resultado em lucro de 750 milhões de reais.

Uma série de negócios temerários conduziu a tal resultado, entre os quais a compra de ações por valores superiores aos de mercado e a subseqüente venda por valores inferiores. Mas há outros. Ilustrativa é a compra de participação de 20% na Caesar Towers, avaliada, a pedido da Funcef, pelo Banco FonteCindam – casualmente contratado pela própria empresa para vender suas ações na praça – em 10,5 milhões de reais. Outro parecer, da consultoria Booz-Allen & Hamilton, chegou ao valor de 3,5 milhões de reais. Em vez de buscar uma terceira opinião, preferiu a diretoria fazer, grosso modo, uma média dos dois valores: 7 mlhões. Em dois meses o investimento valia 137.000 reais.

A maior parte dos negócios ruinosos se concentra no ano de 1988, quando a Funcef era presidida por José Fernando de Almeida, indicado para o cargo adivinhe por quem? Eduardo Jorge, ex-secretário-geral da Presidência da República.
O relatório foi encaminhado a um advogado criminalista, para exame. Seria interessante, de qualquer forma, averiguar a evolução patrimonial de todos os que na direção da entidade, ainda que sempre seja possível, a quem for flagrado com patrimônio não justificado pela renda, alegar que deve os recursos adicionais à venda do ouro achado dentro de um pote, ao final de um arco-íris… E haverá quem acredite.

Agora, busca-se a cobertura dos rombos apurados com dinheiro da Caixa Econômica Federal. Nada mais, nada menos que 1,8 bilhões de reais, que poderão sair do bolso do contribuinte. Se não saírem, o prejuízo é dos associados da Funcef, que poderão não receber de aposentadoria os valores que imaginavam.

Se sairem, terão melhor sorte dos que caírem ou cairão, desgraçadamente, nas mãos de fundos complementares de aposentadoria. Quanto a estes, só poderão contar com a caridade de familiares ou com os frutos de trabalho em período da vida em que deveriam estar descansando. Da hipótese alternativa é melhor nem cogitar.

Saiba o leitor, portanto, que, seja qual for a escolha que venha a fazer no sentido de resguardar uma velhice digna, em nada se diferenciará de uma roleta russa.

O que surpreende é que, inobstante as lições do passado, o histórico de negligência – ou coisa pior – e não fiscalização se repita, ano após ano.

Porto Alegre, 29 de novembro de 2000.

Carlos Alberto Etcheverry

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