Primeiro de abril, mas nem tanto

Comemorando o dia primeiro de abril, publiquei uma notícia (1) sobre uma financeira imaginária que teria criado um Departamento de Assistência Psicológica ao Consumidor…

Essa filantrópica iniciativa resultaria da constatação de que um elevado número de clientes – ou vítimas? – estaria apresentando problemas de ordem psicológica, resultantes da inconformidade com as altas taxas de juros cobradas nos empréstimos, que oscilariam entre 500% e quase 800% ao ano, com conseqüências evidentemente ruinosas nos orçamentos domésticos e, imagino, no equilíbrio psicológico dos tomadores de crédito.

É claro que não existe essa instituição financeira, e, se existisse, seria remotíssima a hipótese de um comportamento análogo ao descrito acima.

Mas um fato é inteiramente verdadeiro: existem, de fato, financeiras que estão cobrando taxas de juros de até 798,65% ao ano. Não é de surpreender, como informa a matéria, que os clientes sejam muito bem tratados, recebam atendimento personalizado, cafezinho e se sujeitem a “menos exigências bancárias”. Pagando o que pagam, seria mais apropriado, na verdade, que recebessem champanhe…

Esse fato estarrecedor foi tornado público pelo jornal Folha de São Paulo, que noticiou estarem alguns grandes bancos comerciais adquirindo o controle de financeiras, com o óbvio objetivo de aumentar seus já polpudos lucros:

“Entre os grandes bancos que possuem financeiras está o Unibanco, que comprou do banco Icatu a financeira Fininvest, com uma rede de 253 agências espalhadas pelo país.

“Já o Bradesco, que recentemente comprou a Zogbi, tem a Finasa, com 121 agências. O Itaú abriu a financeira Taií no ano passado e já conta com 50 filiais. O HSBC tem a rede de 320 filiais da Losango.” (2)

A taxa de juros informada acima foi calculada com base na informação prestada por um funcionário da Losango, controlada pelo HSBC, segundo o qual um empréstimo de R$500,00 é pago em dez prestações de R$119,58, ou seja, R$1.195,80. O que corresponde, segundo o professor de matemática financeira José Dutra Vieira Sobrinho, a uma taxa de juros mensal de 20,08% ao mês, ou 798,65% por ano.

Registra a reportagem que isso, para o professor Dutra, “é uma imoralidade” e “o Banco Central deveria ser mais rigoroso na fiscalização dessas instituições financeiras.”

Receio, entretanto, que o professor esteja clamando no deserto. É irrealista esperar que faça alguma coisa uma instituição que está “amplamente dominada por profissionais que provêm do sistema bancário e adjacências ou que têm esse sistema como destino após a sua passagem pelo governo.” (3)

É curioso, por outro lado, que ele não tenha pedido mais rigor da parte do Judiciário, do Ministério Público e até – por que não mencionar, já que estamos falando de usura em dimensões nunca antes vistas? – da polícia. Por que será?

Tudo indica, portanto, que esse portentoso e infame saque da economia popular, no que depender do Banco Central, não irá se encerrar tão cedo. A omissão das outras instituições públicas, por outro lado, tornaria inteiramente justificável que alguns fossem levados a pensar que o termo “públicas” é apenas mais uma ironia. E, neste caso, também não haveria como impedir que lhes viesse à lembrança o padre Vieira, no Sermão do Bom Ladrão:

Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado (…). O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera (…). Não são só ladrões (…) os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. – Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: – Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. – Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província (…)”

A continuar esta situação, não seria de surpreender se, por exemplo, a indústria do tabaco, para ampliar seus negócios, passasse a adquirir o controle de “bocas de fumo” nas grandes metrópoles e viesse a contar, nessa manifestação de audácia empresarial, com o beneplácito do poder público.

Porto Alegre, 24 de abril de 2005.

Carlos Alberto Etcheverry

(1) Em outro blog, que já não existe mais.

(2) Bancos usam financeiras para emprestar (Folha de São Paulo, 26.03.2005)

(3) Batista, Jr., Paulo Nogueira: O oligopólio bancário.

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