Stalag Central

A leitura de Zygmunt Bauman, o conhecido sociólogo polonês, é sempre instrutiva nos dias atuais.
Particularmente proveitosa é a leitura de “Modernidade e Holocausto”, obra em que ele faz uma análise extraordinária do genocídio dos judeus e de outras minorias na primeira metade do século XX.O pensador sublinha o fato de que o assassinato em massa, o genocídio, não é propriamente uma novidade na historia da humanidade. Mas o patrocinado por Adolf Hitler tem uma singularidade: não tinha simplesmente o objetivo de livrar-se de adversários, mas era o meio para um fim determinado, um passo a ser dado para chegar a uma sociedade “melhor e radicalmente diferente.”
Constituindo, portanto, uma meta de engenharia social, nada mais natural do que fazer uso da tendência natural da ação burocrática de desumanizar os objetos da operação burocrática. Apenas assim a violência podia ser exercida da forma mais eficiente e menos dispendiosa, pois é da essência da ação burocrática fazer com que os meios sejam submetidos apenas a critérios instrumentais e racionais, dissociados da avaliação moral dos fins. Em linhas gerais, pela divisão funcional do trabalho, somada à substituição da responsabilidade moral pela técnica, é criada uma enorme distância entre todos os envolvidos numa determinada ação e o resultado desta. Compreende-se, então, como os responsáveis pela coordenação do transporte ferroviário daqueles que iriam para os campos de extermínio não achassem que eram minimamente responsáveis pelo resultado final do seu trabalho.
Mas, lembra Bauman, o macabro final da política antissemita nazista não poderia ter sido tão terrivelmente exitoso sem um meticuloso trabalho preparatório de criação de distância entre a população alemã ariana e os judeus. A esse resultado se chegou pela combinação da propaganda e de legislação clara e deliberadamente discriminatória. Esse processo foi descrito por Bauman sob o título “‘Selando’ as vítimas.” Os judeus foram difamados das mais absurdas formas possíveis e, concomitantemente, separados do restante da população, marcados para “tratamento especial”.
Por fim, vinha a remoção para os campos de extermínio, em condições de privação de absolutamente tudo: dias em vagões fechados, sem ventilação, sem água, sem banheiros e condições mínimas de higiene…
O tratamento infligido nesta última etapa não era pura casualidade: fechava o ciclo de desumanização e facilitava o manejo dos sobreviventes na chegada aos campos de extermínio, dificultando o surgimento de qualquer sentimento de empatia entre os prisioneiros e seus captores. Afinal, tinham aspecto repulsivo e doentio…
Todas essas reflexões me vêm à mente quando considero o que tem aflorado à esfera pública sobre as condições de acomodação dos presos no Presídio Central de Porto Alegre. Claro, não se está tratando de pessoas marcadas para morrer, nem de discriminação racial ou de outra espécie. Mas subsiste um traço em comum entre os algozes de então e os de agora: completo e absoluto descaso pela dignidade humana. No primeiro caso, como política de Estado, uma preparação para o  extermínio puro e simples.
No segundo, pelo desprezo por pessoas com as quais os eleitores não tem qualquer empatia. Uma dose adicional da mesma involuntária crueldade poderia até render votos…

Porto Alegre, 04 de maio de 2012.

Carlos Alberto Etcheverry

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