Passagem pelo governo alavanca carreiras no setor financeiro

Em sua edição de 22 de agosto, a Folha de São Paulo publicou matéria na qual se informa que

“Economistas e banqueiros que passaram por cargos estratégicos no governo nos últimos dez anos estão hoje em posições de destaque no mercado financeiro ou em atividades correlatas. Quando no setor público, todos desempenharam funções que exigiam contato com a iniciativa privada, sobretudo na área financeira.

Levantamento da Folha no Banco Central, no Banco do Brasil e no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) apurou, no período dos últimos dez anos, o que faziam 32 economistas, engenheiros, banqueiros e advogados antes de entrarem para o governo e o que passaram a fazer depois. Dos 32, 25 estão hoje em bancos, corretoras, empresas de investimentos ou consultorias econômicas e financeiras. Antes do serviço público, só 15 estavam no mercado.” (Dinheiro, p. B 1)

E desempenharam funções mal-remuneradas, pelos padrões do setor privado – recebendo no máximo R$8.362,80, mais auxílio moradia de R$1.800,00 -, e com um nível de exposição pública que levou 36 ex-dirigentes do Banco Central a ser processados.

Mas é um sacrifício compensador: altos executivos do setor financeiro não ganham menos de R$700 mil por ano, alguns até mais. Daí que, somadas “as equipes e os membros dos conselhos de Itaú e Unibanco, por exemplo, seria possível montar uma diretoria colegiada inteira do Banco Central somente com ex-dirigentes da instituição.” (idem)

Vários desses ex-dirigentes tiveram a responsabilidade de tomar decisões difíceis “sobre o destino de bilhões de reais na economia, causando perdas ou lucros para bancos, empresas e governo.” (Dinheiro, p. B 5)

Entre essas decisões está a tomada em março de 1999, quando a taxa básica de juros (Selic) passou de 25% ao ano para 45%. Com isso, a dívida pública corrigida pela Selic sofreu elevação, em três meses, de 30%, subindo de R$99,46 bilhões para R$140,5 bilhões em junho.

Uma decisão difícil, sem dúvida. Informa-nos o jornal, ainda, que nesse mesmo ano a receita com títulos da dívida pública do Itaú e do Unibanco foi, respectivamente, de R$3,159 bilhões e R$1,448 bilhão. Precisamente nesses bancos se encontram trabalhando Sérgio Werlang (Itaú) e Daniel Gleizer (Unibanco).

Mas essa, segundo o jornal, é uma via de mão dupla: “No atual Copom [Comitê de Política Monetária, que decide sobre a Selic] estão ex-executivos do Unibanco e do BankBoston. Alexandre Schwartsman (Assuntos Internacionais) foi economista-chefe do Unibanco. Hoje no comando do BC, Henrique Meirelles presidiu o BankBoston no Brasil e nos Estados Unidos.” (idem)

Uma matéria muito elucidativa, como se vê. Mas com uma lacuna imperdoável, que poderá levar alguns leitores a conclusões terríveis: não se forneceu nenhum exemplo de decisões que causaram perdas também para os bancos.

Porto Alegre, 29 de agosto de 2004.

Carlos Alberto Etcheverry

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