Tarso e o caso Battisti – uma comparação infeliz?

“Em entrevista [sobre o caso Battisti] publicada ontem na versão impressa do jornal italiano [La Stampa] e divulgada pela agência Ansa, Tarso disse que algumas autoridades italianas agiram com ‘incivilidade e vulgaridade’, o que pode ter ‘azedado’ a situação. (…) Tarso comparou ainda a Itália dos Anos de Chumbo (1969-1980) com a ditadura militar brasileira (1964-1985). “- Quero recordar o povo italiano que, inclusive eu e a presidente Dilma Rousseff, fomos definidos como ‘terroristas’ pela ditadura militar, quando na realidade lutávamos pelo retorno da liberdade democrática – disse.” (Zero Hora, 18/01/2011)

Lendo a matéria, a impressão que se tem é a de que Tarso Genro teria comparado o que é incomparável, no que não acredito. A Itália se tornou uma democracia parlamentar com a queda do fascismo e não deixou de sê-lo mesmo nos chamados “Anos de Chumbo”, quando grupelhos de variados espectros ideológicos se empenharam em combater o sistema com atos de terrorismo, entre eles o de que fazia parte Battisti.

Sendo a Itália o que era e ainda é, somente com muita má-fé seria possível a comparação com o Brasil durante a ditadura militar. Os nossos terroristas combatiam um regime ditatorial; os terroristas italianos queriam o fim da “liberdade democrática” e foram combatidos dentro das regras do Estado de Direito. Os primeiros estavam legitimados a fazê-lo e, caso pedissem asilo em outro país, deveriam ser considerados criminosos políticos.

O mesmo status não poderia ser conferido aos terroristas italianos. Não basta, para tanto, que os atos de violência tenham tido motivos políticos: a motivação deve ter um mínimo de legitimidade, ou seja, o regime combatido deve poder ser enquadrado, de forma consensual na comunidade das nações, como antidemocrático.

A não ser assim, organizações criminosas tardariam pouco a se cobrir com um verniz ideológico, de forma a assegurar a impunidade de seus gestores e/ou – para usar uma expressão da moda – “colaboradores”.

Concordando com a linha argumentativa de Tarso Genro, nada impediria que a máfia siciliana lançasse uma declaração de guerra ao sistema capitalista e anunciasse seu engajamento na luta pela implantação de uma república socialista, habilitando, assim, seus dirigentes a pleitear, depois, asilo político no Brasil…

Porto Alegre, 31 de janeiro de 2011.

Carlos Alberto Etcheverry

(Publicado originalmente em Magrs.net)

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